Para Hélio Machado, a cirurgia robótica trará maior precisão à neurocirurgiaApesar de toda tecnologia e do avanço científico ocorrido na área, a neurocirurgia permanece envolta em grande temor por parte dos pacientes. Isso porque, historicamente, trata-se de uma cirurgia complexa que, inicialmente, era feita às cegas e que, muitas vezes, acabava malsucedida como explica o professor titular de neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Hélio Rubens Machado, também chefe da disciplina de Neurocirurgia Pediátrica. “Simplesmente os médicos, através de um exame clínico neurológico, chegavam à conclusão que a doença poderia estar em determinado lugar e com uma coragem infinita, pessoas realmente incríveis, operavam em situação precária e com equipamentos e materiais cirúrgicos inadequados, pois os atuais ainda não existiam”, relembra o médico.

O norte-americano Harvey Williams Cushing* (veja quadro) foi o pioneiro da cirurgia no cérebro. Ele viajou pela Europa, reunindo informações e ganhando experiência. No início do século passado voltou aos EUA e começou a operar. Antes dele, era usual os clínicos neurologistas fazerem um diagnóstico elaborado e pedir para cirurgiões fazerem as operações, o que não dava bons resultados devido à complexidade do cérebro, desconhecido por estes profissionais. “Harvey era extremamente habilidoso e foi um desbravador. Com ele, temos o começo da neurocirurgia como conhecemos hoje. Existem técnicas ainda criadas por ele, como a cirurgia de hipófise. Seguindo seu exemplo, muitos neurocirurgiões viajam o mundo em busca de conhecimento. Ele é o maior destaque de todos os tempos na área”, avalia o professor.

Harvey Williams Cushing
Ele estudou medicina na Harvard Medical School e obteve seu diploma de medicina em 1895. Cushing completou seu estágio no Massachusetts General Hospital e depois realizou uma residência em cirurgia sob a orientação de um médico famoso, William Stewart Halsted, no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore. 

Outro nome bastante significativo para a história da neurocirurgia, Wilder Penfield, também na primeira metade do século, foi responsável por importantes estudos em neurociências, na área da neurofisiologia, pela criação do Instituto Neurológico de Montreal, no Canadá e, em 1934, pelo desenvolvimento da cirurgia da epilepsia com anestesia local, através da estimulação do córtex, orientando a excisão cirúrgica (operação por meio da qual são extraídas as partes de um órgão ou pequenas tumefações) através da conversa com o paciente acordado.

Depois deste primeiro momento em que os conhecimentos na área foram adquiridos e transmitidos, tudo de forma muito rápida, a neurocirurgia entrou na era moderna. Nos últimos 40 anos, houve um enorme avanço tecnológico. No começo, os médicos precisavam de um conhecimento gigantesco, científico e neurológico, para começar obter algum tipo de bom resultado. Hoje, junto a esse legado, há a tecnologia que torna a neurocirurgia muito segura. “Temos grandes microscópios, visão tridimensional e utilizamos a técnica da microcirurgia,  extremamente delicada, com a intenção de evitar qualquer dano cerebral, afinal, ninguém aceita mais cirurgias em que o paciente fique pior. A intervenção precisa ser bem-sucedida, tanto do ponto de vista da cura da doença como da ausência de sequelas. Por isso, houve também uma enorme evolução na área da reabilitação. Só preparamos uma cirurgia, sabendo o que teremos que fazer depois para recuperar esse paciente, caso haja dificuldade motora na fala ou na visão”, explica Hélio.

Avanços tecnológicos
Após a microcirurgia, um avanço que mudou, radicalmente, a neurocirurgia foi a Ressonância Magnética que remodelou conceitos, possibilitando trabalhar com maior segurança, mapeando e buscando locais, caminhos e vias no cérebro menos lesionáveis. “Na ressonância é como se víssemos uma fatia do cérebro com todos os detalhes. Antigamente, não tínhamos essa visualização. Assim, através do mapeamento cerebral (tractografia), o médico pode planejar a cirurgia minuciosamente”, explica o neurocirurgião.

Outro avanço tecnológico “monstruoso”, segundo Hélio, está na neuronavegação.  A ressonância magnética é unida a um aparelho e, através de uma caneta, cada ponto tocado durante a cirurgia demonstra a localização exata em relação ao exame, como se fosse um mapa. “São avanços que proporcionam inúmeros benefícios como, por exemplo, não precisar fazer uma abertura gigantesca na cabeça do paciente. Pelo contrário, são suficientes pequeníssimas incisões, pois se pode fazer um caminho como se estivesse sendo guiado por um GPS”, compara o médico.

Apesar do considerável avanço, o elevado custo destes equipamentos e alta complexidade,  que envolve a estruturação de uma equipe multidisciplinar, ainda são entraves para que muitos hospitais se beneficiem da alta tecnologia.

Quanto ao futuro da neurocirurgia, Hélio Machado, que em 45 anos vivenciou diferentes etapas e assistiu ao impulso dado pelo surgimento da ressonância magnética, vê com bastante expectativa o desenvolvimento da cirurgia robótica. “Para um futuro próximo, vejo uma melhora considerável em toda essa tecnologia. A próxima etapa, já colocada em prática em alguns lugares, mas que ainda não está completamente estabelecida, é a cirurgia robótica, não o robô fazendo a cirurgia, mas funcionando como um importante auxiliar que contém informações, um braço mecânico de extrema precisão. A cirurgia robótica trará maior precisão à neurocirurgia”, destaca Hélio.

Um pouco mais distante, o médico projeta, ainda, uma considerável redução da cirurgia cerebral, especialmente nos casos de tumores malignos. Isso como consequência do desenvolvimento da biologia molecular, do conhecimento da genética desses tumores e da ampliação do uso de terapias gênicas que serão mais eficazes.  “São mecanismos que estão em desenvolvimento e, nos próximos dez anos, modificarão, radicalmente, a cirurgia nesta área. A intervenção precoce, técnicas e diagnóstico de anomalias, de doenças congênitas que possam ser evitadas com terapia genética, ao lado das grandes intervenções externas, como por exemplo, ultrassom, laser e radioterapia. Há vários estudos sendo desenvolvidos e muitos avanços ainda devem aparecer”, pontua Hélio Machado. 

A farmacêutica Lucimara Benelli passou por duas cirurgias no cérebro, mas conseguiu se recuperar Sem medo de ser feliz
Aos 44 anos, a farmacêutica Lucimara Benelli já passou por duas cirurgias no cérebro. A primeira em 2012, quando recebeu o diagnóstico de um oligodendroglioma e a mais recente, em agosto deste ano,  para mais uma remoção, desta vez em outra área. “Já fazia quase um ano que tinha crises sutis. Sentia mal-estar, esquecimentos rápidos, dores de cabeça, mas como sempre tive esses sintomas não achava que poderia ser algo mais sério. Aí começaram as crises em que eu não conseguia nem falar. Na minha mente, imaginava estar falando certo, mas saia tudo errado. Então, procurei um médico e me surpreendi com o resultado da ressonância magnética. Precisei operar rapidamente”, conta Lucimara.
Na primeira cirurgia como não sabia exatamente pelo que passaria, embora tenha se informado bem sobre o procedimento, Lucimara foi mais tranquila do que na última porque, segundo ela, o pós-operatório foi bastante doloroso. “Foi uma operação demorada e senti muita dor, mas correu tudo bem. Na volta para casa, não podia me comunicar. Estava com muita dor e não conseguia ser entendida para pedir um remédio, nem mesmo escrevendo, saia tudo confuso. Foi desesperador. Imaginei o que faria da minha vida nestas condições, mas aos poucos, fui me recuperando e em três meses voltei ao doutorado. A segunda operação foi menos dolorosa, mas fiquei confusa e tive perda de memória. Agora, já estou levando a vida normalmente, em busca de ser feliz a cada dia”, conta a farmacêutica. 

A Neurologia é a especialidade que se dedica ao diagnóstico e ao tratamento das doenças que afetam o sistema nervoso (cérebro, tronco encefálico, cerebelo, medula espinhal e nervos) e os componentes da  junção neuromuscular (nervo e músculos). As doenças mais comuns tratadas pelo neurologista são: cefaleias ou dores de cabeça; distúrbios do sono (insônia, excesso de sono, sono não restaurador, ronco, apneia do sono) doenças cerebrovasculares (AVC) ou “derrames”; distúrbios do movimento (como tremores, tiques e doença de Parkinson); demências (como doença de Alzheimer); doenças desmielinizantes (como a Esclerose Múltipla); neuropatias periféricas (como a diabética); doenças musculares e de junção (como a Miastenia Gravis); desmaios, crises convulsivas e epilepsias; tonturas e vertigens; infecções do sistema nervoso (como meningites e encefalites); tumores; doenças degenerativas; déficit de atenção e de hiperatividade; formigamentos, perda de memória, confusão, perda de força, alteração na visão, mudança de comportamento, etc. A neurologia tem interface com a psiquiatria e também pode tratar de casos de depressão, ansiedade, irritabilidade, pânico, etc.

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