Questão presente desde as origens da Psicanálise, a sexualidade ganhou uma nova dimensão a partir dos estudos de Sigmund Freud, no início do século XX, quando passou a ser considerada elemento fundamental para o desenvolvimento mental. O assunto, em seus mais variados desdobramentos, deixou o plano moral para ocupar lugar, também, no campo da ciência e, a partir de então, tornou-se objeto de estudo de diversos pensadores. Assim explica o psicólogo e psicanalista Luciano Bonfante, membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto (SBPRP), entidade fundada em 1993 e que faz parte da International Psychoanalytical Association (IPA), a qual congrega atualmente por volta de 72 instituições psicanalíticas, distribuídas por 39 países, assim ultrapassando os 11.000 membros.

Destinada, entre outros objetivos, a estimular o estudo, o desenvolvimento e a difusão da Psicanálise criada por Sigmund Freud, a SBPRP possui diversos grupos de estudos, incluindo aquele dedicado às discussões sobre a sexualidade, criado em 2015.  Formado por 12 especialistas, o grupo denominado “As múltiplas manifestações da sexualidade” se reúne mensalmente para debater as complexas questões relacionadas à sexualidade humana, aliás, à psicossexualidade cujo sentido ultrapassa o erotismo. 

No século XX, Freud foi o responsável por elevar a sexualidade para uma discussão científicaEspecialmente sobre a questão da homossexualidade, qual é o trabalho desenvolvido pelo grupo? 
Luciano: É um grupo interno da SBPRP que se reúne todos os meses para pensar atentamente as manifestações da sexualidade na sociedade atual — além da homossexualidade, qualquer expressão da pulsão sexual. A Psicanálise interessa-se pelo humano em suas infinitas manifestações, precisamente, pelo funcionamento psíquico. A psicossexualidade é componente central da personalidade, transcendendo à sexualidade e ao erotismo. É uma ciência que se dedica à mente humana, objetiva facilitar o indivíduo a ser o que ele é em sua singularidade. Há a tendência humana em classificar, julgar, pensar por pares de oposição, como certo e errado, moral e imoral, contra e a favor, normal e patológico. Todos os esforços são no sentido de compreender o ser humano sem classificações reducionistas. O psiquismo é complexo e a Psicanálise se ocupa dessa complexidade.

Qual é o termo mais apropriado, na sua leitura, para se referir ao assunto: opção, condição ou orientação sexual?
“Orientação sexual” é o mais apropriado. É uma expressão corrente, porém pouco assimilada. “Opção” é inadequado, pois não se escolhe a direção do desejo sexual, uma vez que são movimentos inconscientes. Não é um ato de volição, da vontade comum. Viver requer fazer escolhas a todo o momento, mas não do desejo sexual, ele se manifesta e se impõe. A escolha incorre apenas sobre a decisão do caminho que se dará para esse desejo.

De que forma a Psicanálise trata o tema?
Como toda ciência, a Psicanálise foi transformando seu modo de pensar ao longo da história. No início do século passado, a sexologia e as teorias psiquiátricas, que patologizavam a homossexualidade, influenciaram a Psicanálise de Freud, um neurologista que desejava estatuto de ciência para sua criação. Esse “status” era exigido pelo positivismo da época, que requisitava definições científicas. Depois, rompeu com o discurso psiquiátrico e se desligou da sexologia. A Psicanálise distanciou-se dessas posturas iniciais, não é uma ciência normativa e trata o tema como uma dimensão universal da mente. O psicanalista R. Stoller sugere “homossexualidades”, pelas variedades de manifestações, e “heterossexualidades”, pela mesma razão. Assim, a homossexualidade é uma modalidade da sexualidade com variações individuais, uma identidade sexual legítima a partir do complexo entrelaçamento de elementos biológicos/constitucionais, culturais e psicológicos.  Na relação analista-analisando, não tem relevância uma etiologia que explique, mas as implicações na vida dessa pessoa que queira abordar o tema em sua análise pessoal.

Em meados de setembro, uma decisão do juiz da 14ª vara Federal do Distrito Federal, ganhou grande repercussão (negativa) ao autorizar o tratamento de “reversão sexual”, chamada de cura gay. Qual a sua opinião sobre o ocorrido?
Somos procurados por pessoas de qualquer orientação sexual, que podem estar angustiadas com suas fantasias e práticas sexuais ou com sua vida em qualquer contexto. Atendemos a todos sem distinção. Observo uma questão ética importante: há o risco de essa resolução ser nociva. A decisão de um magistrado frente a uma polêmica pode reforçar a perspectiva patológica da homossexualidade e validar a homofobia pelo que representa socialmente.

Na teoria e na prática, pensar em tratamento psicológico para “reversão sexual” é mesmo um equívoco? Por quê?
“Cura gay” remete a um equívoco produzido por força de coerção ideológica e pela associação com o modelo médico de cura, quando se pensava na homossexualidade como doença, o que está fora de questão desde 1974. Curar-se de quê? Das suas qualidades humanas, uma vez que é parte da identidade? Crueldades foram, e são cometidas em nome da falácia da “cura gay”: exorcismos, eletrochoque, terapias hormonais, hipnose etc. Recentemente, a China foi notícia no El País por oferecer terapias para esse pseudotratamento em hospitais públicos e privados, onde receberam “pacientes” forçados pelas suas famílias. É um engano tosco pensar em uma terapêutica que redirecione a orientação do desejo de uma pessoa, como se fosse reversível. Dispor-se a realizar o impossível é causar um mal ainda maior. Freud foi enfático ao dizer que transformar um homossexual convicto em heterossexual é tão improvável quanto a operação inversa. Esta afirmação é bem útil se tomada de forma empática. A Psicanálise distanciou-se do modelo médico de cura e se propõe ao desenvolvimento mental do ser humano para aquisição de recursos psíquicos próprios para lidar com as exigências da vida, de toda ordem, ser quem ela é com as implicações de ser responsável pela própria autenticidade.

O psicanalista integra um grupo dedicado a discutir as múltiplas manifestações da sexualidadeEm geral, quais são os principais conflitos que a pessoa que se descobre interessada por outra pessoa do mesmo sexo enfrenta?
Quando há duvidas quanto à sexualidade, algo natural, é importante conversar sobre isso sem ser julgado e cobrado a atender padrões de normalidade — isso não está limitado à esfera sexual. Também há os conflitos externos: sem um lugar na família e na sociedade, sofrendo rejeições, hostilidades, ameaças de perda do amor de pessoas queridas e perdas materiais importantes, como um emprego, os conflitos saltam.  É muito difícil viver sob rejeição, sem respaldo social, sem um lugar em uma sociedade que nega pertencimento, não sanciona o desejo, resultando em renúncias na vida dessa pessoa quando ela não consegue enfrentar tal situação. Isso é triste e amargo como são todos os estigmas. 

Como lidar com a questão internamente?
Se a pessoa se apropria do próprio desejo e o integra à sua identidade sexual, terá que lidar com o que é inerente às descobertas do amor e do erotismo, acrescido de conflitos externos, o que dependerá do grupo familiar e de outros grupos sociais. No caso de haver conflitos, a análise pessoal é uma opção a quem estiver interessado nas questões de seu mundo interno. A Psicanálise cuida caso a caso, não há uma só personalidade igual à outra e, consequentemente, o mesmo acontece com a psicossexualidade. 

De que maneira se colocar diante das pessoas com quem convive, amigos e familiares?
O mais natural possível, o que nem sempre ocorre por parte do que já foi dito acima. Ninguém se anuncia heterossexual, então, por que deveria ser diferente para alguém que se sente homossexual? A menos que seja muito importante agir assim para alguém por razões particulares. Além do interessado, novamente, dependerá dos ambientes familiar e social. Não há uma regra para isso como para tantas outras decisões emocionais.

De que maneira a família pode ajudar?
Recebo pais aflitos, com sentimento de culpa, como se a sexualidade do filho fosse definida por uma falha educativa ou por erros de suas condutas como pais. Uma função fundamental da família é não julgar o que ela mesma desconhece, está temerosa e angustiada. Tolerar o diálogo criará um espaço de acolhimento e de esclarecimentos que poderão auxiliar no alívio do excesso de angústia, fortalecendo os laços familiares. A família vive e sofre com os caminhos que seus filhos vão traçando e se incomoda por ver abalado seu conjunto de crenças e valores culturais no qual embasa suas condutas e almeja legar isso à próxima geração. Se a família se apoia nesses códigos de conduta, como ela vai considerar mudanças e absorver novas subjetividades se a cultura não está legitimando as diferenças trazidas pelos filhos? O profissional pode acolher os pais e ajudá-los a repensar o exercício das funções e admitir ver o filho como indivíduo com caminhos próprios, e não como reflexo direto dos pais. É um processo penoso para os dois lados. 

Onde mora o maior ou os maiores preconceitos no que tange a essa questão?
A morada do preconceito é dentro de cada indivíduo e pode ser dirigido ao outro e a si mesmo, sinalizando conflitos. O pré-conceito julga e condena antes de conhecer, rejeita as diferenças, não só as sexuais. O sofrimento pelo preconceito é de mão dupla: diretamente em quem é alvo e ao agente do preconceito. Um homofóbico pode ficar aflito por se sentir assim e não identificar esse sofrimento sozinho. A homofobia precisa ser ouvida igualmente: se ela for atacada com a mesma violência, o ciclo se perpetua.

De que forma, efetivamente, a Psicanálise pode ser útil?
Oferecendo a escuta psicanalítica. Uma escuta próxima e respeitosa das questões da intimidade, sob ética profissional e plena de cuidado com o que há de mais profundo em cada um.  O vínculo analítico e a possibilidade de colocar em palavras emoções ou experiências que não tinham uma narrativa produz aceitação de si mesmo, alívio de ansiedades e de sofrimentos inúteis.  Além do que, pode ser útil como um facilitador de reconsiderações, ampliando a visão dos fatos da vida e suas adversidades.

Luciano: “vivemos tempos de uma sociedade ‘antipensamento’”O Brasil é um dos países onde mais se comete crime contra homossexuais. Quais traços de nossa sociedade ajudam a entender esse fato?
Ainda que o psicanalista seja um pensador da cultura, sociólogos e historiadores responderiam com mais precisão a respeito dos traços sociais. O Brasil está nesse lugar desonroso por razões sociopolíticas, mas em toda civilização há a presença do ódio assassino. Ele faz parte da constituição do psiquismo, é componente das paixões humanas, como amor, inveja, ira e tantos mais. O ódio não é mero oposto do amor, ele deriva de outros sentimentos, como o medo, por exemplo. No ódio aos homossexuais existe o medo de que o outro denuncie algo que não se admitiria sentir. A ideia é matar o outro que aponta aquilo que rejeita em si mesmo. Sempre há algo que politicamente pode ser feito em favor dessa causa, mas é ilusório pensar em extirpar o ódio da vida em sociedade porque ele está dentro de todos, é expressão dos instintos agressivos. É importante cada um conhecer o próprio ódio.

É possível se pensar em um trabalho educativo para prevenção desse tipo de comportamento, de forma coletiva?
Tratando-se de educação, uma boa maneira de minorar aspectos negativos, como ódio e violência, é educar sem as posições extremadas vistas ultimamente. O pensamento polarizado não admite diálogo, pensamento e entendimento das mudanças sociais nesse momento obscuro da cultura. Atualmente, há pouca tolerância a qualquer manifestação que desvie de condutas normativas. A alienação e o fanatismo são riscos em qualquer ambiente — vivemos tempos de uma sociedade “antipensamento”. Tópicos importantes, como política, educação, religião, racismo, aborto e gênero, são tratados com intolerância, engendrando sofrimentos extremos. Estão eclodindo mudanças radicais em que a sociedade só consegue ter “reações”, está com dificuldades e com medo de pensar. A população está confusa com a rapidez de tais mudanças, alarmada com as expressões do humano em sua totalidade. Isso é importante porque remete à nossa existência e ao que ela tem de desconfortável e inquietante. Somos seres complexos não só pela sexualidade, inerentemente tensa e instável, mas pelas transformações da vida. A qualidade do humano não cabe em definições de nenhuma ordem, e assumir esse ser complexo é trabalhoso e assustador, mas é a única maneira de se falar em alguma liberdade de ser.

Acredita que a questão recebe a devida importância no país?
A causa é importante, e o país tem prioridades gritantes em todas as áreas. No entanto, é a vez dessas reivindicações, conhecidas na história por mulheres, negros e outros grupos minoritários sem privilégios. Houve conquistas de diretos civis, como união civil e controle de patrimônio, mas creio que algo mais efetivo somente pequenos grupos organizados, de visibilidade insuficiente, talvez maior nas redes sociais. O tema está nessas mesmas redes, nas novelas de TV, nos livros e aqui, na revista. 

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