Mestre, doutora e professora associada do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Cristina Marta Del-Ben já estudou a neurobiologia da ansiedade e pânico e estagiou na Unidade de Neurociências e Psiquiatria da Universidade de Manchester, no Reino Unido. À frente do Serviço de Psiquiatria da Unidade de Emergências do Hospital das Clínicas (HC) da FMRP-USP, há mais de duas décadas, desenvolve importante trabalho de estudo e de consolidação do atendimento em saúde mental em Ribeirão Preto e região.

Como aconteceu o seu envolvimento com o ensino?
Junto à pesquisa, sempre mantive a assistência e administração de serviços de saúde. Considero que as atividades de ensino, pesquisa e extensão são indissociáveis na carreira de um professor universitário de cadeira clínica. Apesar do dispêndio de tempo e de energia exigido, isso garante o controle da qualidade do ensino e da pesquisa desenvolvidos nos serviços de extensão. São esses os princípios que tenho adotado desde o início das minhas funções como professora universitária, em 1996.

Quais os resultados de sua dedicação ao estudo e prática na saúde mental?
Desde a minha contratação como docente, coordeno o Serviço de Psiquiatria da Unidade de Emergências do HC do FMRP-USP. Nesses mais de 20 anos, atuei na organização, ampliação e implantação de serviços com o intuito de criar um eixo de Psiquiatria de cuidados agudos e de intervenção precoce eficiente e inovador, que, de fato, atendesse às necessidades assistenciais, de ensino e de pesquisa. Isso só foi possível graças à participação de médicos assistentes realmente identificados com o projeto. Sou muito grata a todos. 

Como ocorre a atuação psiquiátrica na unidade de emergência do HCFMRP-USP?
A partir de 2000, fizemos a readequação e a ampliação do serviço, com o objetivo de atender às necessidades assistenciais e, ao mesmo tempo, de facilitar práticas de ensino e de pesquisa. Criamos ambulatórios e enfermaria para internações de curta permanência, ampliamos leitos, reformamos área física e fixamos uma equipe multidisciplinar, organizando um serviço de manejo integrado de Psiquiatria de Emergência (EP), voltado para o cuidado de pacientes agudos que necessitam de intervenção precoce e de cuidados intensivos. O EP virou referência regional de atendimento, responsável por um número significativo de internações psiquiátricas efetuadas no 13º Departamento Regional de Saúde do Estado de São Paulo (DRS-XIII), apesar do reduzido número de leitos (oito).

Quais as vantagens do Ambulatório de Primeiro Episódio Psicótico (APEP)?
Implantada em 2012, esta nova unidade ambulatorial corresponde a um programa de referência regional para a detecção e a intervenção precoce de primeiro episódio psicótico. Uma das diretrizes fundamentais para a operacionalização foi o fato de a mesma equipe de médicos assistentes atuar nas diferentes modalidades de tratamento voltadas à situação de emergência, garantindo qualidade e rapidez no atendimento, além de maior aproveitamento dos recursos humanos e hospitalares e redução de custos. Do ponto de vista acadêmico, criou-se também oportunidade ao médico residente de acompanhamento longitudinal e completo de casos agudos, o que, normalmente, não ocorre em programas de residência, geralmente caracterizados por vários estágios de curta duração.

Há mais de 20 anos, Cristina coordena o Serviço de Psiquiatria da Unidade de Emergências do HCQual a relação desses serviços com a pesquisa?
Um estudo desenvolvido por Regis Eric Maia Barros mostrou, por exemplo, que pelo menos um terço das internações psiquiátricas ocorridas na região, durante os anos de 1998 e 2007, foram realizadas no Serviço de Psiquiatria da Unidade de Emergência, na época com seis leitos, o que representa um papel relevante dessa unidade na rede de saúde mental, haja vista o número de leitos disponíveis em enfermaria e em hospitais psiquiátricos da região (22 leitos no HC Campus e 80 leitos no Hospital Santa Tereza, na época de coleta de dados). 

Quais outros resultados foram apurados?
Em continuidade a esses estudos, Maria Eugenia de Simone Brito dos Santos verificou a evolução, em um período de pelo menos quatro anos, de pacientes procedentes de Ribeirão Preto admitidos pela primeira vez em leitos psiquiátricos da região. As taxas de adesão ao tratamento apontam para uma boa capacidade da rede de serviços de saúde mental da região de absorver os pacientes. 

O Serviço de Psiquiatria da Unidade de Emergências do HC é um modelo?
As peculiaridades da rede local de serviços de saúde mental, que se caracteriza por uma efetiva integração de serviços hospitalares e comunitários, apresentaram como uma grande oportunidade para a realização de estudos epidemiológicos. Em 2010, passei a integrar grupo de pesquisa de estudo multicêntrico denominado European Network of National Schizophrenia Networks Studiyng Gene-Environment Interactions (EU-GEI). Trata-se de um consórcio internacional criado para a investigação da etiologia, mecanismos e prognóstico da esquizofrenia e de outros transtornos psicóticos.

Como definir os transtornos psicóticos?
Os transtornos psicóticos se caracterizam, principalmente, pela presença de alterações no pensamento e na sensopercepção, que são frequentes, intensos, causam sofrimento e levam a um prejuízo significativo do funcionamento social, ocupacional e afetivo do indivíduo. Essas manifestações são comuns na esquizofrenia, mas também podem ocorrer em outros transtornos mentais, como de humor, ou induzidos pelo uso de substâncias psicoativas, entre outros. 

As psicoses são um problema de saúde pública?
Os transtornos psicóticos, também denominados genericamente como psicoses, constituem grave problema de saúde pública, sendo associados a uma perda significativa de anos de vida produtivos e a taxas de mortalidade maiores do que as observadas na população geral. Até o início deste século, prevalecia a ideia de que os números de pessoas acometidas pela esquizofrenia e outros transtornos psicóticos seriam mundialmente semelhantes, independentemente das características e de trajetórias de vida de indivíduos ou de grupos sociais em que essas pessoas estariam inseridas. Mais recentemente, evidências sobre a epidemiologia das psicoses têm mostrado que há uma ampla variação nas taxas de incidência em diferentes populações, áreas geográficas ou grupos minoritários. 

Quais os fatores relacionados à psicose?
Estudos conduzidos principalmente em países europeus sugerem que o número de casos novos de psicose, em determinada população e em determinado período de tempo, seja maior em áreas urbanas do que menos urbanizadas ou rurais. Outro fator de risco observado no hemisfério norte é a migração. As taxas de incidência de esquizofrenia e de outras psicoses mais altas em indivíduos de primeira e segunda geração de migrantes, em comparação com nativos. Existem, ainda, evidências de heterogeneidade entre cidades, bairros ou outras unidades geográficas. Dados sobre a incidência e evolução das psicoses no mundo ainda são escassos, especialmente em países de baixa e média renda, onde vive a maioria das pessoas que sofrem desses transtornos. 

Quais os dados encontrados no Brasil com relação à psicose?
No Brasil, a incidência de primeiro episódio psicótico foi estimada em um estudo realizado em São Paulo, por Paulo Rossi Menezes, com uma população de cerca de 1.200.000 pessoas, economicamente muito heterogênea. Foram identificados 367 casos, entre 2002 e 2005, correspondendo a taxa de incidência de psicose de 15,8/100.000 habitantes ano. Os números são muito inferiores ao esperado para uma grande metrópole como a cidade de São Paulo.

Há estudos de incidência em Ribeirão Preto e região?
Realizamos um estudo com o objetivo de estimar a incidência das psicoses em Ribeirão Preto e nos demais municípios componentes do DRS-XIII (Altinópolis, Barrinha, Batatais, Brodowski, Cajuru, Cássia dos Coqueiros, Cravinhos, Dumont, Guariba, Guatapará, Jaboticabal, Jardinópolis, Luís Antônio, Monte Alto, Pitangueiras, Pontal, Pradópolis, Ribeirão Preto, Santa Cruz da Esperança, Santa Rita do Passa Quatro, Santa Rosa de Viterbo, Santo Antônio da Alegria, São Simão, Serra Azul, Serrana e Sertãozinho) e investigar possíveis interações entre fatores sociais e biológicos na ocorrência destes transtornos mentais. Também estudamos possíveis alterações biológicas de indivíduos com psicose, comparados com irmãos saudáveis e controles provenientes da comunidade, por meio de exames de neuroimagem e de análises genéticas e imunológicas. Foram incluídas pessoas de ambos os sexos, com idade entre 16 e 64 anos. Publicamos, recentemente, em uma das principais revistas médicas na área da Psiquiatria (JAMA Psychiatry), os resultados do estudo multicêntrico coordenado pelo consórcio EU-GEI sobre a incidência de primeiro episódio psicótico.

Especificamente em nossa região, quais foram os resultados?
Especificamente nos 26 municípios componentes da nossa área de estudo (DRS-XIII), identificamos 588 pacientes entre 16 e 64 anos em primeiro episódio psicótico, ao longo dos três anos de estudo. Há semelhança do que foi observado na análise global do estudo multicêntrico. Na nossa região, as taxas de incidência de psicose também foram maiores entre pessoas do sexo masculino e entre pessoas que se autodeclararam como não-brancas. Provavelmente, essas diferenças de incidência não estão relacionadas meramente com a cor da pele, mas com fatores socioeconômicos. A taxa global de incidência de psicoses na região do DRS-XIII foi de 20/100.000 pessoas/ano, próxima às observadas na cidade de São Paulo e em uma cidade no sul da Itália, mas menores às descritas nos grandes centros urbanos de alguns países europeus, o que corrobora dados prévios sobre a heterogeneidade da incidência de psicoses ao redor do mundo.

Qual a importância deste e de outros estudos na área de saúde mental?
O investimento consistente em pesquisa sobre a epidemiologia das psicoses, particularmente em países emergentes e de baixa e de média renda, pode trazer grandes contribuições para a compreensão da etiologia desses transtornos e, consequentemente, promover o desenvolvimento de politicas e ações de prevenção, bem como colaborar para a melhoria da vida daqueles que estão direta ou indiretamente afetados por esses transtornos, por meio de ações terapêuticas mais eficientes. 

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