O momento certo para o início do tratamento odontológico é uma questão que tem sido discutida amplamente nos consultórios dos dentistas. Às vezes, as divergências sobre o assunto até resultam em situações polêmicas, mas não é só o primeiro contato com o dentista que tem rendido conversas mais profundas: dúvidas sobre o uso da chupeta na infância, a hora ideal de colocar o aparelho em crianças e tantas outras questões relacionadas à saúde bucal fazem parte da comunicação entre os pais e os profissionais da área. 

 Fato é que os cuidados devem ter início logo no nascimento dos primeiros dentes e se estender durante a vida toda, principalmente com tratamento preventivo. “Há questões tanto de cunho estético quanto relacionadas à saúde bucal que devem ser tratadas na infância a fim de evitar maiores problemas mais à frente”, pontua a odontopediatra Renata Fronzaglia Lollato (CROSP 25.689). 

 Na entrevista a seguir, a especialista alerta que as visitas ao consultório podem ter início antes mesmo de o bebê nascer para que a mãe possa receber as orientações adequadas e se preparar para que a criança tenha uma vida dentária saudável e fazer o acompanhamento da evolução, do crescimento e erupção dos dentes. Assim, qualquer anormalidade pode ser detectada precocemente, além de prevenir e tratar, cuidando, portanto, de forma integral da saúde do seu filho.

A partir de quando os pais devem se preocupar com a dentição dos filhos?
Se há um acompanhamento frequente, com visitas regulares ao profissional de odontologia, não é necessária uma preocupação. Em caso de algum trauma, causado por ações mecânicas ou acidentes e imprevistos, deve ser tratado como uma situação de emergência.  Com as mudanças biológicas, psicológicas e físicas da infância e da adolescência, em que são incorporados atitudes e comportamentos típicos da idade, pode ocorrer má formação na arcada dentária, nascimento de dentes tortos ou aparecimento de cáries, que comprometem a estética e a saúde. Sendo assim, com uma visita logo no início da dentição e o contínuo acompanhamento, as chances de sucesso na prevenção são maiores. 
 
Geralmente, na infância, é normal a criança cair e quebrar um dente. Isso pode ser grave?
 Dependendo da extensão da fratura ou mesmo perda dental, pode ser uma situação que deixará sequelas na infância e na vida adulta. Cada tipo de trauma tem uma indicação diferente de tratamento. O sucesso nos resultados depende da agilidade do atendimento para realizar os procedimentos no tempo adequado após o acidente. Quando o dente é de leite, é preciso procurar com urgência um odontopediatra para avaliação. O tratamento indicado depende de vários fatores, como a idade do paciente e tipo de trauma, por exemplo.

“O check-up odontológico ajuda a manter a boca sempre saudável e evita problemas sistêmicos graves, como infecções, dores crônicas, além do câncer de boca”, afirma Renata
 Em que momento é possível observar se há alterações na arcada dentária? 
 Levar os filhos ao dentista pode ser  motivo de ansiedade dos pais, afinal, as crianças são, na maioria das vezes, inquietas e agitadas e, em alguns casos, os pais passam para os filhos a própria ansiedade, mas isso é perfeitamente compreensível e deve ser encarado com naturalidade. Nos consultórios, essa atitude é frequentemente superada, por isso, alertamos: as visitas ao odontopediatra devem começar o quanto antes. A partir dos três anos, é possível detectar alterações, mas o recomendado é que uma criança passe por uma avaliação ortodôntica por volta de seis anos, quando começam as trocas dos dentes de leite pelos permanentes. 
 
O hábito de sucção de dedo e chupeta pode entortar os dentes?
 Sim, pois atuam como interferência no desenvolvimento orofacial da criança , podendo afetar a parte respiratória, a deglutição, o desenvolvimento ósseo e o posicionamento dos dentes. Acredita-se que 70% dos bebês não necessitam da sucção do dedo ou da chupeta. Caso os pais optem por oferecer, o esperado é que eles abandonem o hábito espontaneamente até os quatro anos. Se os pais perceberem a necessidade, indicamos que ofereça a chupeta ortodôntica, mais fácil de ser removida do que tirar o hábito de sucção do dedo. As alterações dentárias causadas pela chupeta ocorridas até os três anos, geralmente, têm correção espontânea após a eliminação do hábito. Se a sucção permanece até a fase de troca dos dentes, as más oclusões, geralmente, permanecem, levando as crianças à necessidade de tratamento com aparelhos ortodônticos. 
 
Como é feito o tratamento infantil?
 O primeiro atendimento deve ser baseado na avaliação de higiene e de hábitos alimentares, uso de chupeta e sucção dos dedos. Em alguns casos, são necessários pequenos procedimentos, mas em geral, é dada uma orientação básica e preventiva para os pais sobre a conduta de escovação dos dentes, o uso do fio dental e a necessidade dos aparelhos ortodônticos. O tratamento, na maior parte dos casos, objetiva estabelecer um adequado crescimento facial. Na fase inicial da dentição, observa-se se todos os dentes, ao nascer, terão o espaço adequado. Por volta dos seis anos, toda criança precisa de uma consulta de avaliação ortodôntica. Por meio dela, o profissional identifica se há necessidade do uso de aparelho, além de verificar qual a técnica mais indicada, de acordo com cada caso. 
  
Uma rotina de limpeza e alimentação correta, com limitação de açúcares, influenciam no desenvolvimento saudável dos dentesQuais as consequências para a saúde, na fase adulta, de uma pessoa que começa o acompanhamento odontológico tardiamente?
 A prevenção é sempre o melhor caminho. Caso o paciente não frequente regularmente o dentista, pode ser que essa fase de prevenção passe e haja a necessidade de tratamento curativo, para sanar os males ocasionados pela ausência de visitas odontológicas. A conduta preventiva pode evitar muitas doenças e complicações relacionadas ao organismo como um todo. O check-up odontológico ajuda a manter a boca sempre saudável e evita problemas sistêmicos graves, como infecções, dores crônicas, além do câncer de boca. Na fase adulta, é também muito importante a correção dos dentes, para que haja correta mastigação e harmonia do sistema oral. Em casos extremos, as perdas dentais trazem o desequilíbrio da estética e da saúde. As doenças da gengiva são também  um fator de risco para muitas doenças. As infecções dentárias podem ser agravadas, atingindo todo o corpo.  A prevenção e a manutenção odontológica, em qualquer fase da vida do indivíduo, traz como consequência a integridade da sua saúde.
 
Existe algum exercício ou hábito que contribua para a melhor dentição das crianças?
 Começar uma rotina precoce com hábitos de higiene e alimentação corretas, limitando doces e açúcares, influencia diretamente no bom desenvolvimento dos dentes das crianças. Além disso, a amamentação é muito importante, pois estimula a respiração e a deglutição corretas. Vale sempre a regra: para crescer bem, a criança deve respirar bem. Para estimular as crianças desde pequenas a terem hábitos saudáveis, os pais devem dar o exemplo e insistir nos cuidados, buscando maneiras lúdicas de oferecer um cardápio variado e selecionado entre legumes, verduras e frutas. 

Nos últimos tempos, muito tem se comentado sobre a Ortopedia Funcional. Em que consiste essa técnica?
 A Ortopedia Funcional dos Maxilares é uma técnica utilizada por nós há mais de 20 anos. Consiste na correção e no direcionamento do crescimento facial e maxilar, envolvendo a musculatura de todo o sistema orofacial, realizada através de procedimentos clínicos e do uso de aparelhos removíveis. É uma especialidade da odontologia que trata as alterações e os desequilíbrios musculares, ósseos e posturais do paciente, trabalhando com técnicas que promovem o crescimento e o desenvolvimento ósseo o muscular. A ortopedia funcional é indicada para crianças que apresentam algum tipo de alteração com relação aos maxilares e dentes, quando existe um desequilíbrio no crescimento facial, muito comum atualmente e justificado principalmente pela pouca ou ausência de uma mastigação correta. 

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