Caracterizada por uma dor em apenas um dos lados da cabeça, a enxaqueca — geralmente confundida com cefaleia —, possui características marcadas por um distúrbio crônico, com sintomas que incapacitam o paciente de realizar as mais simples atividades. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que a doença atinge 90% da população mundial, sendo 75% dos adultos de 18 a 65 anos. Das dores de cabeça existentes, é a que mais causa afastamento do trabalho: em média quatro dias por ano. As mulheres representam os números mais expressivos.

Incômodos fortes latejantes, geralmente acompanhadas por náuseas, variação de humor, falta de energia, desconcentração no trabalho e hipersensibilidade à luz são os sintomas que tendem a perdurar por três dias ou mais, obrigando o paciente ao recolhimento e impedindo o convívio social. Esse sofrimento faz parte da vida da empresária Viviane Mendonça Marques desde os cinco anos, quando sofreu o primeiro episódio. “Lembro bem que foi no Natal. Minha mãe ficou desesperada ao me ver aos gritos e vomitando, com muita dor”, conta. À época, mal podia imaginar que esta seria a primeira de muitas crises que estavam por vir.

Das lembranças da infância, Viviane se recorda de ser uma criança muito agitada, inquieta e irritada. Sem saber o real motivo desse comportamento, hoje acredita que as dores eram as causadoras de tamanha euforia. “Essa doença é hereditária. No meu caso, herdei do meu pai, que também sofreu intermináveis crises. Lembro de várias delas”, comenta. Segundo a empresária, o pai, com 68 anos, percebeu que os sintomas diminuíram apenas após os 40 anos. Depois da primeira e marcante crise, Viviane deu início ao tratamento neurológico, aliando remédios para os momentos que sentia dor e medicamentos preventivos.

O acompanhamento médico também incluía uma lista de tudo o que ela consumia por dia. Foi assim que descobriu o maior vilão da sua rotina: o café, portanto, foi obrigada a cortá-lo do cardápio. Além da cafeína, foi necessário eliminar os embutidos, os queijos, os chocolates e as frituras, itens que evita até hoje. “Na crise, tudo isso deve ser abolido”, destaca Viviane, que, em anos de tratamento, aprendeu a controlar a alimentação. A medida, segundo ela, resultou em uma melhora significativa. “Hoje, com 38 anos, consigo identificar os fatores que desencadeiam a dor. Entre eles, também estão a exposição ao calor, os ambientes abafados, as poucas horas de sono, o nervosismo e o esforço físico excessivo”, relata a empresária.
 
Fatores associados 
Para Viviane, o mais crítico era o período pré-menstrual, que rendia três intermináveis dias de reclusão. “Perdi as contas de quantas vezes cheguei a ir ao pronto atendimento. No trabalho, ganhei até um apelido carinhoso de ‘garota enxaqueca’”, brinca.  Os amigos e as pessoas de sua convivência reconheciam a mudança de comportamento quando estava prestes a entrar em crise. “Meus olhos e minha disposição mudavam. Isso atrapalhou muito a minha vida. É triste dizer, mas aprendi a conviver com a síndrome, já que ela não tem cura, ainda mais no meu caso, que sempre foi crônico”, acrescenta.

Na visão da empresária, a sociedade ainda não tem conhecimento necessário acerca do assunto e desconhece, inclusive, que as dores ocasionadas pela doença limitam as pessoas de atividades simples do dia a dia. Dependendo do medicamento, segundo ela, acarretava efeitos colaterais, como dificuldade de concentração, fraqueza muscular e alterações na fala. Entre as alternativas para controlar a dor, estava o uso contínuo de anticoncepcional, que suspendia a menstruação e, consequentemente, o período de tensão pré-menstrual.

Por muito tempo, a doença atrapalhou sua vida. “Precisei faltar à aula e ao trabalho, algumas vezes, e isso me deixava arrasada, porque eu sabia que não seria a primeira e nem a última vez. Frequentemente, acordava no meio da noite já com muita dor e ia trabalhar, mas o rendimento não era o mesmo”, detalha. Viviane ficava sem dormir, sem comer e sob efeito de medicamentos fortes, o que contribuía para a sensação de fraqueza e de cansaço. Após a suspensão do anticoncepcional e a recente gravidez, as dores têm dado uma trégua. Livre delas, a empresária espera que a filha de sete meses não passe pelo mesmo incômodo.

Sintomas e tratamento
A preocupação em relação aos frequentes males deve ser baseada em situações que levam o indivíduo à perda de dias de trabalho ou lazer, à ingestão frequente de analgésicos — mais de oito doses ao mês — ou, ainda quando, a crise de dor de cabeça melhora apenas com medicações injetáveis e atendimento médico. Em outros casos, pacientes com enxaqueca na fase adulta podem ter apresentado, ainda na infância, sintomas que antecedem as dores de cabeça: dor nas pernas, vertigens, cólicas abdominais ou mal-estares durante viagens (cinetose). Em geral, os pacientes sabem diferenciar uma dor de cabeça comum de uma crise, entretanto, a confusão está em definir o diagnóstico sem antes avaliar sintomas prévios, como uma dor de cabeça secundária à tensão emocional, sinusite, febre, entre outros.

Para o professor sênior de Neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) e membro da Comissão Cientifica da Sociedade Brasileira de Cefaleia, José Geraldo Speciali (CRMSP 014531), a doença tem apenas uma causa: maior sensibilidade do sistema nervoso a vários tipos de situações. “Essa sensibilidade é herdada. Já existem genes estudados que, quando mal estruturados, provocam essa sensibilidade cerebral e, portanto, as crises de enxaqueca. É uma doença herdada principalmente pelo sexo feminino, mas pode acometer também os homens, na proporção de três mulheres para cada homem”, pontua o médico. 

Speciali comenta que as dores são, normalmente, causadas pela ingestão de determinados alimentos, bebidas e até por problemas dentais. “Se a pessoa tem uma sensibilidade cerebral herdada, certos alimentos, bebidas alcoólicas, estresse, problemas dentais, depressão, ansiedade, período menstrual, entre tantas outras situações, pode disparar o processo encefálico, o que culmina na crise”, justifica. Em resumo, segundo o médico, devido à hereditariedade e a aos diversos fatores que a doença envolve, existe dificuldade por parte dos pacientes e até mesmo dos profissionais da saúde em diagnosticar a enxaqueca. 

As fases da enxaqueca
Pródromo: fase que precede o aparecimento da dor em algumas horas ou até um dia. Há vários sintomas de alarme descritos, como anorexia, dificuldade de concentração, irritabilidade, alteração do humor e do apetite, alteração do sono e distúrbios digestivos. Esta fase ocorre em 60% das crises.

Aura: acontece antes ou até durante a enxaqueca. Costuma afetar apenas 25% dos pacientes e compreende distúrbios visuais chamados de aura — pontos luminosos, manchas escuras, ziguezagues brilhantes e perda visual — que duram alguns minutos, seguidas pela dor de cabeça. Os sintomas começam gradualmente e duram de 20 a 60 minutos.



Crise de enxaqueca: se não tratada, costuma durar de quatro a 72 horas. A frequência com que elas ocorrem varia para cada pessoa. Os principais sintomas incluem dor latejante e pulsante, sensibilidade à luz e a sons, confusão, tontura e vômito.

Pósdromo: período de sintomas que ocorrem após a fase aguda da dor. É a fase da exaustão. Os sintomas mais comumente relatados são de cansaço, cefaleia leve, dificuldades cognitivas, mudança de humor e fraqueza.

Segundo Speciali, a doença tem apenas uma causa: maior sensibilidade do sistema nervoso a vários tipos de situaçõesOs níveis são determinados pela frequência das crises: quanto mais frequente, maior a gravidade. “De acordo com a frequência, é definido o tipo de tratamento, seja para os dias de dores ou medicações diárias. A mais grave e de maior dificuldade de tratamento é aquela com frequência maior de 15 crises por mês. Nesse caso, o tratamento deve ser feito por médicos especialistas em cefaleia” completa Speciali. 

Identificando uma crise
Geralmente, a doença dá sinais de que está chegando através dos pródomos. Com cerca de quatro horas de antecedência, alguns sintomas podem ser observados: mal-estar, desânimo, sensação de cansaço, raciocínio lento, bocejos, desejo por alimentos doces, sensibilidade à luz e aos sons. “Muitas vezes, o sono da noite anterior é perturbado. Se o paciente é informado por seu médico que esses são os primeiros sintomas da enxaqueca, ele pode ser medicado nessa fase, evitando a dor tão cruel que vem a seguir. Alguns pacientes também podem ser medicados na fase de aura, que precede a dor entre 15 minutos e uma hora”, argumenta o médico.

Tratamento alternativo
A acupuntura pode ser uma alternativa para aliviar os sintomas causados pela enxaqueca. Através do seu efeito analgésico e anti-inflamatório, torna-se uma opção ao uso de medicamentos. Uma pesquisa recente da University of Tradicional Chinese Medicine aponta que a acupuntura ajuda a reduzir o número de dias em que as dores perduram. Durante quatro semanas, 500 adultos foram submetidos ao tratamento. Antes do estudo, a maioria sofria com seis crises mensais. Depois do procedimento, foram três episódios ao mês. 

A enfermeira especialista em acupuntura Letícia Cardoso Pires explica que a técnica busca recuperar o organismo através da indução de processos regenerativos, normalização das funções alteradas, reforço do sistema imunológico e controle da dor. “A acupuntura vem mostrando grandes benefícios a indivíduos com problemas gastrointestinais, respiratórios, musculares, urológicos, endocrinológicos, psicológicos e neurológicos, ginecológicos e até mesmo dermatológicos”, reforça Letícia. No caso da enxaqueca, a técnica atua em vários níveis do cérebro e ativa um circuito denominado “Supressor da Dor”, promovendo a liberação de endorfinas que dão sensação de alívio e de bem-estar. 
Além das sessões regulares, é importante cultivar hábitos saudáveis associados à prática de exercícios físicos e à alimentação adequada. “A acupuntura aumenta os níveis de serotonina e diminui a liberação de substâncias cerebrais relacionadas à dor”, explica Letícia. A técnica é bastante utilizada, periodicamente, fora das crises, com o objetivo de prevenção.

Rebeca Ortolan é adepta do tratamento. Ela sofria com os sintomas da enxaqueca desde a adolescência.  Depois da primeira crise, há cinco anos, as dores se tornaram frequentes. Durante os episódios, a empresária não conseguia comer ou beber, tinha vômitos e passava o dia deitada na cama. A situação piorou com a chegada da maternidade. Rebecca já havia feito uma sessão de acupuntura anteriormente, mas não tinha gostado do resultado, então, quando a crise atacava, ela tratava apenas com remédios.

Letícia e Rebeca: “o tratamento com a acupuntura atua em vários níveis do cérebro”
Quando notou que os episódios estavam acontecendo pelo menos uma vez por mês, resolveu dar uma segunda chance para a acupuntura. “Trabalho, sou mãe e não aceitava ter que me entregar para a dor daquela forma. Depois de indicações de amigos, retornei à acupuntura e, há quatro meses, sou adepta do tratamento”, afirma. Para evitar as crises, a empresária ainda mantém uma alimentação regrada, livre de produtos que acentuam as dores de cabeça, entre eles, o chocolate e seus derivados. “Tive ânimo de voltar a praticar a Yoga e isso também tem contribuído bastante para o meu equilíbrio”, conclui. 

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