Checar se a porta está trancada, conferir se o ferro de passar está desligado, trocar de roupa mais de uma vez antes de sair, lavar as mãos repetidamente, rezar inúmeras vezes, fazer contagens, redesenhar linhas ou manter os objetos na mais perfeita ordem podem ser atitudes que vão além de simples manias, portanto, eis o alerta: esse comportamento pode ser típico de pessoas com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Esses rituais ou compulsões nem sempre são sinônimo do distúrbio, mas, dependendo do controle de cada um, do tempo e do grau de desenvolvimento da doença, o preocupante é que a realização dos movimentos de forma exagerada possa levar o paciente à depressão e até ao suicídio. A obsessão (quase) incontrolável por higiene, organização, simetria, entre outros, também pode desencadear outros distúrbios, como a Síndrome do Pânico, por exemplo.

Depois do TOC, Márcio ainda foi diagnosticado com Síndrome do Pânico e depressãoDe acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de quatro milhões de brasileiros são portadores do TOC. Acredita-se, ainda, que até 2020, o distúrbio estará entre as dez causas mais importantes de comprometimento por doenças psicológicas. Com início normalmente no fim da adolescência, o transtorno é comum na faixa etária a partir dos 20 anos em diante, com prevalência de 1,1% a 1,8% para pessoas do sexo feminino. Já no caso dos homens, cerca de 25% são diagnosticados com a doença antes dos 10 anos.

Sucesso na carreira e uma vida estável sempre foram as ambições do representante comercial Márcio Ednei de Moraes, de 48 anos. Para conquistar essa meta, era necessário seguir algumas superstições, entre elas, deixar os chinelos alinhados quando assistia futebol, preencher os relatórios da empresa na mais perfeita ordem – mesmo que isso lhe custasse infinitas folhas –, e checar os e-mails compulsivamente. Aos 26 anos e no auge da profissão, vieram diversas manias. “No começo, não me incomodavam. Convivia tranquilamente com esses hábitos. As pessoas percebiam, porém, isso também não interferia no meu dia a dia. Era até engraçado”, lembra Márcio.

Com o passar do tempo, esses costumes se tornaram mais fortes e, devido à frustração de não poder realizá-los, o medo de morrer ou de que alguém próximo morresse era iminente. “Perdi dois carros em acidentes de trânsito porque, para ir ao trabalho, além de me atrasar quase uma hora cumprindo os rituais, eu precisava dar voltas no quarteirão. Foram mais de 20 voltas até que perdi o controle e bati. Se eu não fizesse isso, parecia que ia, de fato, morrer”, conta o representante comercial. Depois de sete meses, decidiu procurar ajuda especializada. “Não entendia o que estava acontecendo e, naquela época, a falta de informação era minha inimiga. Achava que somente quem era louco precisava desse tipo de apoio”, confessa.

Após a primeira tentativa frustrada de um tratamento psicológico, Márcio encontrou na religião o conforto que precisava. Participava de grupos na igreja católica e, segundo ele, buscava a Deus de forma saudável. “Fui muito bem recepcionado por todos na igreja, mas, infelizmente, não era suficiente. Eu necessitava de um tratamento médico, pois as manias me acompanhavam onde quer que eu estivesse”, explica. Com os rituais cada vez mais evidentes, o representante entrou em depressão e, para escapar de tudo, começou a ter uma vida social intensa, bebendo demasiadamente. Junto ao transtorno, adquiriu, também, Síndrome do Pânico. “Eu estava mergulhado no caos de atitudes repetitivas, medo, frustrações e uma tristeza por não saber o que se passava comigo. Cheguei a ficar 40 minutos debaixo do chuveiro chorando”, recorda. 

Aos 28 anos, depois de uma parada brusca no tratamento – que rendeu um pico de estresse e uma crise compulsiva ainda mais forte –, os sintomas da Síndrome do Pânico como palpitações, ritmo cardíaco acelerado, taquicardia e tremores se acentuaram. Foi quando Márcio buscou, novamente, o atendimento psicológico e conheceu a Logoterapia – uma filosofia que se concentra na existência humana, na busca pessoal por um sentido de vida, baseada na teoria de Viktor Frankl.

A psicóloga Eliane ressalta a importância de aliar o atendimento psicológico ao psiquiátrico para o sucesso no tratamentoFortalecido espiritualmente por meio da imersão na religião, o acompanhamento psicológico aliado ao tratamento medicamentoso com antidepressivos resultaram em uma melhora significativa. Márcio entendeu que o TOC não tem cura, entretanto, tem libertação. “A gente vai conviver com ele a vida toda, mas, de uma forma controlada. Hoje, depois de tanto sofrimento, estou bem porque meu conceito de felicidade é outro, diferente daquela perseguição incessante por uma carreira brilhante. Vivo para minha família e para os meus momentos de lazer (com o TOC ao meu lado)”, brinca. Para ele, o apoio familiar e a busca precoce por ajuda psicológica e psiquiátrica é fundamental para evitar outras síndromes que o TOC desencadeia. “Conheço minha essência e, assim, encontrei um equilíbrio. O meu emocional, espiritual e físico estão em harmonia e o processo de reconstrução de mim mesmo foi necessário para tirar lições valiosas”, conclui. 

Vencendo o TOC
A influência que a realidade biológica, psicológica ou social e todo o cenário que o TOC apresenta gera uma grande perturbação na vida do paciente. Entretanto, não define a posição que toma frente à sua existência. A psicóloga Eliane de Melo Andrade (CRP: 06/63834), utiliza-se da teoria da Análise Existencial e Logoterapia para explicar que, apesar de todos os acometimentos que uma pessoa diagnosticada com o distúrbio sofre, ainda é possível reconhecer nela um espaço de liberdade preservado. “O indivíduo não é livre de alterações de pensamentos, de sentimentos e de ansiedade, mas é livre para escolher a melhor maneira de conviver com as limitações, de se posicionar diante delas e superá-las”, argumenta. A profissional aponta que, mesmo com o transtorno, o paciente é capaz de decidir sobre as situações e sobre si mesmo, ter qualidade em suas tarefas cotidianas, relacionar-se e, inclusive, utilizar-se do aprendizado e do amadurecimento obtido com o sofrimento para ajudar aos demais. 

“Pacientes podem se matar por não suportarem mais conviver com as obsessões e compulsões”, frisa GláuciaA história do filme “Melhor é Impossível”, onde o ator principal, Jack Nicholson, interpreta um homem que sofre de TOC e se relaciona com os fatos da vida e com as pessoas de forma totalmente fechada em suas ideias, pensamentos e manias é pontuada por Eliane. No decorrer do longa metragem, o personagem encontra razões para ir além, auxiliando quem precisa e amando uma mulher. “No processo da psicoterapia, o paciente, juntamente com o psicoterapeuta, passa a reconhecer e a ter mais clareza, não só das dificuldades, mas, principalmente, dos recursos e das potencialidades que permanecem intactas apesar do transtorno. É preciso mostrar que existe uma possibilidade de achar um sentido na vida, transformando o sofrimento em conquista e superação”, analisa a especialista.  Ainda sobre o tratamento, a psicóloga ressalta a importância do acompanhamento multidisciplinar, ou seja, a associação entre medicamentos e terapia. “Esse é o papel do trabalho conjunto entre os profissionais, onde conseguimos minimizar a ansiedade e promover, ao portador do transtorno, uma qualidade de vida melhor”, conclui. 


Temperamento mais inibido, regras de conduta rígidas, crenças muito arraigadas, eventos estressantes e traumáticos, em que a pessoa necessita recuperar o controle de forma objetiva, são os fatores de risco do distúrbio apontados pela psiquiatra Gláucia Schiavon Matta Benedicto (CRM: 59.827). A especialista alerta que, em alguns casos, a depressão é secundária ao TOC justamente pelas limitações que ambos provocam e o risco de isolamento social. “Pacientes podem se matar por não suportarem mais conviver com as obsessões e compulsões. Por isso, o tratamento medicamentoso com antidepressivos é importante, geralmente em dose maior que a usada na depressão e por tempo mais prolongado, isolados ou associados a neurolépticos e à psicoterapia”, descreve Gláucia.

É comum que a população apresente sintomas obsessivos ou pequenas compulsões que não comprometem a vida, mas, quando há uma rigidez de pensamentos e de crenças, é preciso estar atento. “Há um componente mágico no TOC em que a pessoa tenta controlar e evitar a angústia. Ela percebe a irrealidade das crenças, porém em alguns casos, acaba se convencendo de que essas crenças são verdadeiras. Para que o paciente conviva com a doença, é preciso tratamento adequado. O TOC é uma condição de muito sofrimento, às vezes, tratado com menosprezo ou como alvo de piadinhas no círculo de amigos ou familiares. Quem sofre desse mal necessita de ajuda e de diagnóstico precoce”, finaliza a psiquiatra. 

Jô Soares, apresentador de tv 
Entrevistando a cantora Maria Rita, ele disse: “Você não começou a ter TOC com a idade? Eu sim. Os quadros na minha casa têm que estar levemente tombados para a direita”. (via Extra)

Luciana Vendramini, atriz
“Ter TOC é, basicamente, ver nascer, a cada dia, uma nova mania: ter que subir e descer de elevador várias vezes, lavar as mãos toda hora, tomar banhos sem-fim. [Meus] rituais atingiram um grau tão elevado que, durante três anos, de 1999 a 2002, não saía mais de casa, parei de trabalhar. Meu caso se agravou demais porque eu era contra tomar remédio, achava que apenas a terapia podia me curar. Quando aceitei o tratamento, em quatro meses já era outra pessoa.” (via site Glamour)

Roberto Carlos, cantor
Em entrevista ao G1, o cantor comentou suas famosas manias: “Não são só manias. É a questão do TOC, o Transtorno Obsessivo Compulsivo. Não se trata de se livrar dessa ou daquela mania, mas de tratar o problema como um todo. Determinadas coisas me angustiam hoje menos do que antes.” (via G1)

Ilustração impactante
O artista Shawn Coss decidiu criar retratos que caracterizam pessoas que sofrem de distúrbios psiquiátricos. Segundo o portal de notícias BoredPanda, a ideia foi dada por um dos fãs de Coss, que aceitou e ainda se colocou à disposição para ajudar quem tem esse tipo de problema.

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