O surgimento do primeiro bebê de proveta, termo utilizado para denominar uma criança proveniente de uma inseminação artificial ou de uma fertilização in vitro, foi um marco na história da Medicina. Desde então, novas tecnologias vêm surgindo para trazer aos casais que pretendem experimentar o doce desafio de ter filhos a possibilidade desse sonho ser realizado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, em todo o mundo, existam mais de três milhões de bebês de proveta. A técnica foi criada em 1978, pelo embriologista britânico Robert Edwards que, em 2010, recebeu o prêmio Nobel de Medicina. Junto do cientista Patrick Steptoe, Edwards se tornou o precursor do tratamento que, hoje, é conhecido como reprodução assistida. Revolucionário à sua época, o procedimento era destinado a mulheres com problemas de fertilidade. Com o progresso constante da especialidade, que acompanha as mudanças comportamentais da sociedade, esse recurso, atualmente, é ainda mais abrangente, atendendo a um público diversificado e oferecendo funções adicionais, como a seleção de embriões saudáveis, por exemplo.
Segundo Marcos Moura, a conscientização sobre todas as etapas do tratamento é importante para reduzir a ansiedade do casal
Para o ginecologista e obstetra Dr. Marcos Moura (CRM: 49816), da clínica Matrix – Fertilização Assistida, esse método proporciona um certo conforto aos casais que enxergam a ciência como uma aliada para viabilizar o desejo de ter um filho, entretanto, antes de aderir à essa técnica, é essencial ter a consciência de como funciona todo o processo. “Deve-se orientar o casal que, apesar do estresse das medicações, dos exames, da anestesia, entre outros, existe uma probabilidade muito boa de que o tratamento seja bem-sucedido. Com o objetivo de diminuir a ansiedade, também é importante salientar que, talvez, haja a necessidade de mais de um ciclo do procedimento”, alerta o médico. Em alguns casos, inclusive, indica-se o acompanhamento terapêutico associado ao tratamento. “É preciso avaliar cada casal, suas dificuldades e angústias, além do grau de estresse, seja como causa ou como consequência da infertilidade. Esse acompanhamento psicológico, conduzido por profissionais da área, deve ser individualizado”, reforça o especialista.  

Entenda o  procedimento

A fertilização in vitro é um procedimento de reprodução humana em que o embrião é gerado no laboratório, a partir da fecundação do óvulo pelo espermatozoide. Os óvulos são retirados do ovário por punção folicular após o uso de medicamentos hormonais para indução da ovulação. Depois da fertilização e do crescimento na incubadora, o embrião é transferido para o útero da mulher e, assim, é dada sequência à gravidez. Existem dois tipos de fertilização in vitro: a clássica (óvulos e espermatozoides são colocados na mesma placa e a fecundação ocorre no laboratório, sem seleção espermática) e a Super Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI), quando ocorre a seleção do melhor espermatozoide. A injeção dentro do óvulo é feita com o auxílio de agulha fina e microscópio específico.
Anderson Melo, Jorge Barreto e Marcelo Rufato explicam os avanços nessa especialidade
O sucesso do tratamento depende de inúmeros fatores, entre eles, da escolha dos meios de cultivo, materiais de laboratório e equipamentos. Atualmente, há incubadoras que monitoram os embriões (time lapse) durante todo o processo. “Esse equipamento possibilita uma avaliação não-invasiva dos embriões, promovendo a seleção dos melhores a serem transferidos pela comparação de seu desenvolvimento. Basicamente, é uma câmera que acompanha os embriões dentro da incubadora 24h por dia. Fotos são geradas automaticamente e, ao final do tratamento, temos um vídeo de todo o processo. Esse é, hoje, o que há de mais moderno em reprodução humana assistida no mundo”, explica Marcelo Rufato (CRBio: 64065/1), embriologista e diretor dos laboratórios do Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto (CEFERP).

Vale lembrar que esse é um período de muitas expectativas, planejamento e ansiedade. Para garantir um suporte adequado, é de extrema importância observar se a clínica oferece atendimento humanizado, com individualização do tratamento e disponibilidade, do especialista e da equipe, em cada uma das etapas. “Outro ponto importante é que o casal se sinta seguro durante o procedimento e, por isso, é fundamental contar com um grupo de profissionais multidisciplinar, como psicólogos e anestesistas, por exemplo”, acrescenta o Prof. Dr. Anderson Melo (CRM: 104.975).

Ainda segundo o especialista do CEFERP e médico assistente da reprodução humana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP), além de auxiliar no tratamento da infertilidade, a reprodução assistida pode ser utilizada, também, para pessoas que não têm dificuldades para ter filhos. “É o caso de casais que recorrem à fertilização in vitro para gerar bebês imunologicamente compatíveis com os irmãos que apresentam alguma doença que necessite de transplante. Homens e mulheres com câncer também podem armazenar gametas (óvulos e espermatozoides) antes do tratamento oncológico para terem seus bebês no futuro”, ressalta. O diretor clínico do CEFERP, Dr. Jorge Barreto (CRM: 33.541) aponta o congelamento de óvulos como uma vantagem para mulheres que desejam postergar a gestação.

“Apesar do prejuízo da fertilidade com o aumento da idade, mulheres que já apresentaram falência da função ovariana (baixa reserva ovariana ou mesmo ‘menopausa precoce’) conseguem realizar o sonho de ser mãe através da doação de oócitos”, afirma.

Em 9 de novembro de 2017, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou uma nova resolução sobre os serviços de reprodução assistida no Brasil. Uma das principais alterações foi em relação à doação de óvulos. A partir de agora, é possível que uma mulher realize a fertilização in vitro gratuitamente ou com redução do custo sem a necessidade de doar parte dos óvulos, desde que outra mulher, com menos de 35 anos, faça a doação dos gametas. De acordo com Dr. Anderson, essa medida vem democratizar o acesso ao tratamento e contribui para aumentar as taxas de sucesso da técnica para receptoras de óvulos doados porque os gametas utilizados serão de mulheres sem problemas de fertilidade. 

Acesso ao sistema público

Cerca de 600 procedimentos de fertilização ao ano são realizados no Centro de Reprodução Assistida do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP/USP). Entretanto, esse é um número pouco significativo comparado à demanda atual: espera-se de dois a três anos pelo tratamento no serviço público da cidade. Para o coordenador do serviço, Prof. Rui Ferriani, do Departamento e Ginecologia e Obstetrícia da FMRP, o uso dessas técnicas não tem cobertura, nem pelo Sistema Único de Saúde (SUS), nem pelos planos de saúde. 
Para o médico Rui Ferriani, é necessário mais investimento público para atender as mães que ficam à espera do procedimento
O HC custeia o procedimento e a paciente só paga a medicação – em média, um valor total de R$ 2 mil. “Devemos avaliar esse tipo de tratamento sob a ótica assistencial: se a lei obriga o Estado a propiciar todos os meios de anticoncepção e concepção à população através de um planejamento familiar e assim não conseguimos fazer, observam-se quantas pessoas estamos deixando de atender por falta de verba”, explica o médico. 

Novas tecnologias surgiram, mas, para o especialista, ainda há muito que avançar. “O maior ganho, hoje, é a aplicação da tecnologia para casais não tradicionais, os homoafetivos, produções independentes, adiamento da maternidade e o congelamento de óvulos”, esclarece Ferriani. Outro ponto a ser considerado é o poder de selecionar e de implantar na mulher apenas os embriões livres de uma carga genética doente. “Hoje, o diagnóstico genético do embrião antes de ser transferido para a mãe evita gerarmos um bebê propenso ao câncer de mama, Alzheimer, Hipertensão, problemas neurológicos e até de Síndrome de Down, entre outras”, explica o médico.

A realização de um sonho

Mãe dos gêmeos, Ana Beatriz e Nícolas, de 1 ano e 5 meses, Flávia Vecchi e o marido, Emerson Vecchi Jr., sempre sonharam com a maternidade, mas tiveram que trilhar um longo caminho para realizar esse desejo. Foram quase três anos de tentativas. Exames clínicos identificaram problemas de fertilidade no engenheiro mecânico e os médicos foram categóricos: seria necessário um procedimento de fertilização in vitro (ICS).
Ana Beatriz e Nícolas nasceram depois de três tentativas de fertilização
“Fiquei triste porque sabia que o processo era doloroso, tanto fisicamente, quanto psicologicamente, além da parte financeira, pois os tratamentos são caros”, comenta Flávia. Para alegria dela e da família, a gravidez veio logo no primeiro procedimento. “Implantei dois embriões e consegui gerar a Laura. Foi a maior felicidade da minha vida”, declara. Diagnosticada com uma síndrome, a pequena, infelizmente, não resistiu e faleceu com somente uma semana de vida. “Foi devastador. O meu sonho tinha acabado ali, naquele momento”, recorda. Passados dois anos, mais uma frustração.

Cerca de um ano e meio depois, Flávia se encorajou para uma terceira tentativa, mas tinha como inimiga a obesidade que adquiriu com as dosagens hormonais. “Nesse meio tempo, resolvi fazer a cirurgia bariátrica. Meu marido, meu maior apoiador, decidiu fazer a cirurgia também, para analisarmos se esse fator estava atrapalhando fertilidade dele”, revela. Ela eliminou 55kg e ele, 80kg. Com isso, a esperança retornou. 

Em 2015, o casal implantou três embriões e desses, dois vingaram. “Esse era o primeiro passo, porque eu precisava saber se a gravidez seguiria adiante. No dia do ultrassom, amanheci com um sangramento – quase morri de medo – porém, segui para o exame. Chegando lá, tivemos a notícia: eram gêmeos. Choramos de alegria.

Conquistei o meu sonho graças à Medicina e me sinto uma vitoriosa depois de tudo que passei. Fechei o tratamento com chave de ouro porque, agora, tenho o meu maior tesouro”, conta a mãe. Já para a psicóloga Érica Grecco Bevilacqua e o marido Rodrigo Bevilacqua de Oliveira, foram dois anos de tentativas. Com obstrução nas trompas aliada à endometriose e Rodrigo com um distúrbio que deixava a velocidade dos espermatozoides mais lenta, o método de concepção natural estava descartado. Com esse cenário, Érica tinha apenas 10% de chances de engravidar. “Eu sempre quis ser mãe e esse índice não me importava porque o meu sonho era maior do que qualquer coisa”, comenta.
Endometriose e outros problemas impediam Érica de realizar o sonho da maternidade, mas, com a ajuda da Medicina, Júlia chegou ao mundo em 2014
A primeira e única tentativa foi em 2013. Quase um mês após o procedimento, a tão esperada confirmação chegou: Júlia estava a caminho. “Tive um choque de realidade. Chorava muito e não acreditava que minha maior vontade estava prestes a ser realizada”, emociona-se. Embora a gravidez tenha sido cercada de enjoos e de uma depressão que conturbava a vida do casal, Júlia nasceu de uma cesariana em julho de 2014. Segundo Érica, valeu a pena percorrer essa trajetória e, caso fosse preciso, faria tudo de novo. 

Saiba mais​

Louise Joy Brown
, a primeira bebê de proveta do mundo, nasceu na Inglaterra, em 1978, pesando 2,5kg. A britânica veio ao mundo por meio de uma cesariana após o procedimento de fertilização in vitro ser criado pelo cientista Robert Geoffrey Edwards. Pela descoberta, Edwards ganhou o Nobel de Medicina, mas deixou grandes questões éticas e tecnológicas a respeito do procedimento que são discutidas até hoje. 

Seis anos depois, em 1984, o mesmo método foi utilizado para conceber Anna Paula Caldeira, a primeira bebê de proveta da América Latina. O procedimento foi conduzido pelo médico Milton Nakamura, na cidade paranaense de São José dos Pinhais.