Doença maligna que se manifesta predominantemente na infância — correspondendo a aproximadamente 30% dos casos de câncer em crianças —, a leucemia está entre os cânceres do sangue mais conhecidos. Em síntese, acontece quando os glóbulos brancos perdem a função de defesa do organismo se reproduzem de maneira descontrolada. O problema começa sempre na medula-óssea (líquido gelatinoso que ocupa o interior dos ossos), local onde as células sanguíneas são produzidas, migrando, depois, para o sangue periférico, podendo atingir diferentes órgãos.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), estima-se que existam 10.000 casos novos de leucemia por ano no Brasil — uma média de 5.500 homens e 4.500 mulheres. Dados de 2013 mostram que 6.316 pessoas morreram em decorrência da doença naquele ano — 3.439 homens e 2.877 mulheres. O médico e professor do curso de Medicina do Centro Universitário Barão de Mauá, Geraldo Cunha, explica que as leucemias são um grupo bastante heterogêneo de patologias. Tanto que, em 2016, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revisou a classificação de todas as neoplasias hematológicas, reconhecendo cerca de 40 tipos distintos da doença. “Apesar desse número expressivo, podemos incluir todas em quatro grandes grupos: Leucemias Linfóides Agudas e Mielóides Agudas, Leucemias Linfóides Crônicas e Mielóides Crônicas”, afirma o médico.

São várias as linhagens celulares que derivam da medula óssea. Baseando-se nos tipos de glóbulos brancos afetados, as leucemias se dividem entre linfóides (chamada, também, de linfocítica ou de linfoblástica) e mielóides (ou mieloblástica). Podem ser agudas (quando há o crescimento rápido de células imaturas) ou crônicas (quando acontece o aumento de células maduras, mas anormais). A Leucemia Linfóide Aguda é mais comum na infância, com cerca de 80% dos casos ocorrendo nessa faixa etária. Com a Leucemia Mielóide Aguda ocorre o oposto: aproximadamente 90% dos casos são registrados em adultos. A Leucemia Linfóide Crônica se apresenta, em média, aos 65 anos de idade. Finalmente, a Leucemia Mielóide Crônica se manifesta, normalmente, entre a 5ª e 6ª década de vida.

Segundo o professor, a origem da doença ainda é desconhecida, mas seu surgimento decorre, habitualmente, da interação entre o fator predisponente — genética — com o desencadeante — hábitos e condições de vida. “Deve-se evitar o tabagismo, a exposição à radiação e o contato com solventes e defensivos agrícolas. Além disso, uma alimentação balanceada com frutas e legumes, poucos alimentos processados e atividade física contribuem para o fortalecimento do organismo”, afirma Geraldo.

“As leucemias são um grupo bastante heterogêneo de patologias”, explica Geraldo CunhaDiagnóstico 
De acordo com Luiz Guilherme Darrigo Júnior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) e médico assistente do Serviço de Transplante de Medula Óssea Pediátrico do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, os sinais clínicos típicos da fase inicial da doença são: anemia, fraqueza, perda de peso, hemorragias, petéquias (pontos violáceos na pele), dores nos ossos e nas articulações, febre, adenomegalias (íngua) e infecções. A tendência a sangramentos acontece pela diminuição na produção de plaquetas (trombocitopenia). As dores nos ossos e nas articulações são causadas pela infiltração das células leucêmicas. Dor de cabeça, náuseas, vômitos, visão dupla e desorientação também são desencadeadas pelo comprometimento do sistema nervoso central.

Os especialistas alertam que é preciso redobrar a atenção com manchas roxas pelo corpo, sangramento aumentado após pequenos traumas, palidez da pele e das mucosas e surgimento de linfonodos, que podem estar presentes nas regiões cervical, axilar e inguinal. Esses sintomas, associados a alterações no hemograma (exame de sangue que analisa as células das três linhagens hematológicas: os glóbulos vermelhos, os brancos e as plaquetas), indicam a doença. Entretanto, o diagnóstico somente se confirma pela realização de exames na medula óssea (mielograma). Nesse caso, o paciente deve procurar um hematologista ou, se for uma criança, um oncologista pediátrico. 

Os procedimentos seguintes dependem do tipo de leucemia. As formas agudas, que são mais agressivas, são sinônimo de internação imediata. As crônicas, que possuem apresentação mais branda, raramente necessitam de internação. Em ambos os casos, após o diagnóstico, são realizados exames complementares para avaliação das funções orgânicas, sorologia para doenças infecciosas e testes genéticos para finalizar a classificação. Em seguida, parte-se para o tratamento. 

Luiz Guilherme destaca os sintomas que levam ao diagnósticoTratamento
Segundo os professores, existem três alternativas de tratamento possíveis. A quimioterapia é a mais utilizada para todos os tipos de leucemia. Em situações específicas, recorre-se, também, ao Transplante de Medula Óssea. Especificamente para os casos de Leucemia Linfóide Crônica, há uma conduta terapêutica conhecida como “wacth and wait”, onde apenas o acompanhamento é realizado, não sendo necessário o uso de medicamentos na fase inicial. “Ao contrário do que ocorre nos tumores sólidos como, por exemplo, os cânceres de próstata, de mama e do aparelho digestivo, onde a cirurgia faz parte do tratamento habitual, nas leucemias praticamente não se usa esse tipo de intervenção”, comenta Geraldo.


O objetivo é destruir as células leucêmicas para que a medula óssea volte a produzir células normais. Um grande progresso para obtenção da cura total da doença foi alcançado com a associação de medicamentos (poliquimoterapia), controle das complicações infecciosas e hemorrágicas e prevenção ou combate da doença no sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal). “A novidade em relação ao tratamento das leucemias está na terapia gênica — CAR T-cell. Estudos recentes demostraram uma boa taxa de sucesso em pacientes com leucemia aguda que não responderam aos tratamentos normais”, aponta Luiz Guilherme. De forma geral, as leucemias agudas têm taxas maiores de cura. Para o professor Geraldo, o êxito do tratamento está muito associado à motivação do paciente em se cuidar e se tratar, assim como ao suporte familiar. “Nesse sentido, um acompanhamento multiprofissional com psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas entre outros agentes de saúde ajuda e aumenta sobremaneira a chance de cura”, afirma o médico. 

Prognóstico
Basicamente, são três os fatores prognósticos para as leucemias: o tipo, onde as formas agudas possuem perspectiva pior que as crônicas, a idade de aparecimento, sendo quanto maior a idade pior o prognóstico, e as alterações genéticas presentes, havendo tanto alterações que melhoram quanto que pioram o quadro dos pacientes. “Nos casos das leucemias agudas, podemos citar os extremos. A Leucemia Linfóide Aguda da infância possui taxas de cura de cerca de 80%. Na outra ponta, a Leucemia Mielóide Aguda do idoso, com alterações citogenéticas de mau prognóstico, possui taxas de cura de cerca de 20%. Quanto às leucemias crônicas, como são patologias de evolução mais lenta, o impacto negativo na sobrevida é menor”, conclui Geraldo.

Depois de curada de uma leucemia aguda, Fernanda se tornou médica

Histórias que inspiram
As leucemias agudas caminham sempre de mãos dadas com histórias de superação, como a de Fernanda Borges Ribeiro. Hoje com 36 anos, ela passou pelo diagnóstico e pelo tratamento aos 13 anos e acabou se tornando médica na área. “Era uma adolescente disposta, mas, progressivamente, fui ficando fraca. Apresentava picos de febre sem explicação aparente e tive um desmaio durante um jantar. Foram diversas as hipóteses levantadas. Passei por uma gastroenterologista que suspeitou das discretas alterações apresentadas no hemograma e solicitou a avaliação de um especialista. Por meio de um exame da medula óssea, a doença foi confirmada”, conta a médica. Agora, como mãe, Fernanda imagina o temor que seus pais sentiram, já que, a princípio, não contaram nada para ela sobre o diagnóstico. “Fui a prioridade da minha família durante os quase três anos de quimioterapia”, relembra.

Revoltada, no início, Aline encontrou forças para batalhar pela cura

Desse período da vida, a médica guardou na memória o medo que sentia — da morte e da dor —, permeado pela resignação. Segundo ela, o tratamento da Leucemia Linfóide Aguda se baseia em um procedimento quimioterápico pesado, praticamente diário, que deixa de ser administrado somente quando o organismo, através de exames, demonstra que precisa de um descanso. Foram muitas idas e vindas de hospitais e algumas sequelas ainda a acompanham, mas Fernanda não sente mais medo. “Qualquer experiência que dure três anos é marcante. Vivi dentro de um hospital oncológico a maior parte da adolescência, o que me fez amadurecer conceitos que talvez fossem construídos muito depois, ou mesmo nunca. Fiquei exposta a vários problemas sérios e mortes em uma fase delicada da vida. Isso mudou minha forma de avaliar situações e de valorizar bens e pessoas”, destaca Fernanda. 

Para a médica, o fato de já ter sentado do outro lado da mesa a torna mais sensível aos sintomas e às queixas, sendo difícil não se envolver com os pacientes. Além disso, saber que ela passou por algo semelhante se torna um reforço positivo. “Não existe cura incompleta para leucemia aguda. Ou o paciente se cura ou falece. Por isso, aconselho a quem passa por essa experiência que extraia o melhor trajeto, não só para leucemias agudas, mas para todas as neoplasias. Uma cabeça sadia e o apoio da família fazem muita diferença durante o tratamento”, enfatiza a médica.

Aline Cristina da Silva Araújo, de 35 anos, descobriu a doença em 2016. Começou a passar mal, sentir dor nas pernas e desânimo a ponto de procurar a emergência e faltar ao trabalho. Foi atendida por um cardiologista que constatou sua resistência muito baixa e a encaminhou para um hematologista, mas, antes de realizar o mielograma, com febre alta, acabou sendo internada e, finalmente, diagnosticada. “Meu mundo caiu com a notícia. Não tinha nenhum familiar ao meu lado e pensei, imediatamente, no meu filho de 13 anos. O médico me explicou tudo e disse que já começaria com a quimioterapia naquele dia. Eu, aos prantos, não tinha força para ligar para meu marido ou para meus irmãos. Senti muita revolta. Parecia que a minha vida tinha acabado ali”, relembra. Ainda em tratamento, Aline conta que passa por altos e baixos porque costuma sentir bastante reação ao medicamento. Já chegou a precisar de transfusão, porém, a doença regrediu bastante, de 90% (quando diagnosticada) para 9%.

Atualmente, a balconista já não se preocupa tanto com a doença e que tem fé na cura. “Estou lutando com unhas e dentes, principalmente pelo meu filho. Quando me curar, quero voltar à vida normal, só que de um modo diferente, porque estou aprendendo muito e enxergando as coisas de outro modo”, alega Aline. 
 

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